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Acompanhando as palestras.
Foto: Luciano Pires |
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Levantei mal das costas. Já são dez dias dormindo em camas que não são a minha. Hoje a coisa pegou. Levantei tão mal que decidi que não ia pagar o mico de ficar na fila para um novo vôo panorâmico que foi decidido diante do tempo bom que fazia. Era muito esforço para ficar torto numa janelinha e conseguir as mesmas fotos do mesmo navio no mesmo gelo. Preferi um programa mais agradável: uma hora de massagem. Paguei, é claro, 65 dólares para ver se o Sacha me aliviava as dores e de certa forma ele conseguiu. Aliviou. Não eliminou. Mas pelo menos a coisa ficou um pouco mais suportável.
Depois da massagem fiquei na biblioteca escrevendo até a hora do almoço. Depois arrisquei assistir outra palestra: dessa vez sobre Fritjof Nansen, um dos grandes – se não o maior – exploradores do ártico. Como as outras palestras, a apresentadora fala rápido demais, não se preocupa com o fato de haver gente do mundo todo ali, que tem dificuldades em seguir o inglês metralhado deles. Na verdade, esse pessoal passa a impressão de que não está curtindo fazer a palestra, mas quer que ela acabe o mais rápido possível. A mulher chegou a engasgar duas vezes com sua metralhadora verbal...
Nos alto falantes um aviso. Hoje é dia de jantar de gala e depois, dança...
“Dress accordingly”diz o aviso, “vista-se de acordo”, porra. Eu com meu figurino de explorador da zona norte... e no meio desse monte de velhinha e velhinho. Não vai dar certo. Hoje é outra noite pra adiantar a leitura do “Ice Blink”, o livro que conta a história da Expedição Franklin ao Pólo Norte em 1846 e seu desfecho com mais de 130 mortos.
Ontem filmei os chineses mergulhando na água gelada.
Hoje quando subi para a biblioteca encontrei-os como sempre reunidos, com seus laptops abertos e olhando as fotos. Fui até eles com o pendrive e expliquei que eu tinha ali dois filmes para eles. Ficaram encantados, vieram todos olhar e copiaram o vídeo. Me encheram de “thank you”com o sotaque deles.
Algum tempo depois o chinês que aparecia no vídeo veio me procurar para agradecer, junto com outro chinês que fala inglês. Adoraram o filminho. Na conversa fiquei sabendo que eles são de vários lugares, Beijing, Shangai e uma cidade no sul da China, próximo do Vietnan. Um deles – na verdade uma das chinesas - planeja ir para o Brasil no final deste ano, para conhecer a Amazônia. São umas figuras mesmo, estão curtindo cada segundo da viagem, em grupo. Uma das chinesas, Iang, disse-me que quer conhecer o Brasil pois em breve quem mandará no mundo serão o Brasil, a Rússia, a Índia e a China. Eu disse “o BRIC, não é?”. Ao que ela respondeu “golden BRIC”. Que ótimo.
Os chineses são infinitamente mais interessantes de conhecer do que os americanos e os ingleses. Pelo menos não tem nenhum traço daquela arrogância, sabe? A arrogância dos ingleses tem a ver com quem já foi um dia o dono do mundo. Eles têm uma certa empáfia. Nada que seja muito agressivo, mas parece sempre que eles são a realeza e nós os plebeus. Já a arrogância dos norteamericanos é a de quem é o dono do mundo. São legaizinhos, mas mesmo que morem no interior de Ohio, trazem consigo aquele lance de “America”que meio que encheu o saco. Meus 26 anos de convívio com os caipiras de Ohio na Dana bastou para conhecer de longe a empáfia dos bichos.
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Índia, China, Rússia e Brasil. É o BRIC! A Iang é a que está a meu lado.
Foto: Divulgação |
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Um exemplo: uma das palestras que assisti foi com a Kara, que tratou dos Ursos Polares. Ela mostrou os esforços que estão sendo feitos pelos países onde existem Ursos Polares (Canadá, Rússia, Dinamarca, Estados Unidos), como proibição de caça de fêmeas, redução da quota de animais que podem ser caçados, criação de reservas, moratória para caça, etc. Ao final ela perguntou: E os EUA? Nada? E disse que os EUA são o único país que ainda não preparou uma legislação tão específica e rigorosa como os demais. No final da palestra, na seção de perguntas e respostas, um estadunidense pediu a palavra para dizer que os EUA fizeram isso e aquilo e que ela não podia dizer “Nada”, que isso passava uma impressão injusta sobre os EUA, e blábláblá. Botou a moça numa saia justa, ela teve que sair de mansinho com o tradicional e hipócrita “I appreciate your comments” mas eu moro no Alaska e esse tema está sempre presente, etc e tal. Achei o comentário do sujeito uma demonstração clara da arrogância dos estadunidenses que jamais aceitam estar errados. O cara deve ser outro “bushista”. Comentei isso com uma das passageiras – estadunidense – e ela disse ter ficado envergonhada com o comentário do sujeito. Assim são alguns deles, normalmente os que detêm o poder...
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