DIÁRIO DE VIAGEM
 
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03.07.2008: 80º 20’ N – 52º 44’ L - O show dos pássaros em Rubine Rock
 

A Estação-fantasma de Setova na Baia de Tikhaya em Hooker Island. Cape Flora em Northbrook Island.

 
  Foto 1: Rubine Rock com um ninhal assombroso.
Foto 2: Depois eles migrarão de volta para o sul.
Foto 3: O navio acompanhando o urso polar.
Foto 4: Eu já tinha visto ursos polares em zoológicos. Mas vê-los ali, em seu ambiente, saber que são feras selvagens e estão a alguns metros de distância é fascinante.
Fotos: Luciano Pires
   
 
  Lindo de ver. E a facilidade com que se locomove sobre o gelo é assombrosa!
Foto: Luciano Pires
   

Hoje o dia começaria com nossa chegada a Rubine Rock, uma pedra gigantesca onde milhares de pássaros fazem seus ninhos.

O navio praticamente encostaria na rocha e então veríamos de perto algo parecido – em maiores proporções é claro – do que eu vi quando estive num ninhal no pantanal do Mato Grosso. E não deu outra. A rocha é muito alta e grande, de origem vulcânica e feita de pilares de basalto, que foram torcidos horizontalmente, formando nichos perfeitos para a construção de ninhos. E além disso, de difícil acesso para os predadores.

Era natural que as aves escolhessem esse lugar para procriar a cada verão.

O som é fortíssimo, milhares de aves voando por todo lado. Uma festa de vida.

Logo em seguida fomos para Tikhaya Bukhta, em Hooker Island, outro lugar histórico. Ali o explorador russo Georgy Sedov passou o inverno entre 1913 e 1914. E foi ali que os russos construíram a primeira estação polar em 1929, que foi fechada em 1963. Monumentos e alguns túmulos marcavam o lugar.

No caminho, outro urso polar surge. E o navio o acompanha por um bom tempo.

Eu já tinha visto ursos polares em zoológicos. Mas vê-los ali, em seu ambiente, saber que são feras selvagens e estão a alguns metros de distância é fascinante.

Pouco depois surge lá na frente um grupo de morsas. Não deixaram que chegássemos muito perto, mas deu pra ver que elas estavam se divertindo.

Pois bem logo estávamos prontos para um novo desembarque. Sempre barulhento, o vôo para a ilha foi tranqüilo. E aqui cabe falar um pouco do helicóptero.

Todo navio quebra-gelos tem pelo menos um helicóptero. Eles são um equipamento imprescindível para fazer as sondagens do gelo e determinar a rota mais fácil para o navio abrir seu caminho. Em nosso caso era um helicóptero russo, evidentemente, com capacidade para 20 passageiros, piloto e co-piloto. Conforme o pessoal técnico, trata-se de uma máquina poderosa e muito bem construída, pilotada por alguns dos mais experientes aviadores russos. De fato, o bicho era grande. Mas os caras bem que podiam dar uma lavadinha nele, não é? Essa é a diferença entre os norte americanos e os russos. Numa viagem como a nossa, se totalmente operacionalizada pelos norte americanos, o helicóptero podia até ser velhinho, mas estaria brilhando. O russo não: é velhinho e eles fazem questão que pareça velhinho. Sujeira pra todo lado, remendos, amassados... aquelas coisas tão, tão... brasileiras, sabe? Desleixo mesmo, de quem é extremamente pragmático. Funciona, então ta bom. Nada de gastar com frescuras.

 
   

 

Pois a cada vôo eu sentia mais falta daquelas frescuras que nos dão a sensação de que quem cuida, cuida bem. Sabe? O metal brilhando, as cores firmes, a fuligem retirada, a limpeza impecável... aquelas coisas que geram custos e que ninguém sabe pra que servem. Pois é...

Descemos na área de pouso, de onde era possível ver os prédios de madeira da velha estação abandonados. E a tal estação não era pequena, não. Por onde andávamos, pedaços de equipamentos enferrujados, parafusos, fios, caçoas de vidro, latas, barris, peças elétricas. São 45 anos de abandono, com a neve encobrindo parte da estação e inclusive invadindo as casas de madeira. Andei por todo lado e fiz questão de entrar num dos predinhos, que era uma espécie de oficina. Vários equipamentos enferrujados e ali, no meio da sala, meio cobertos pela neve, uma mesa e uma cadeira... Quem terá sentado ali? Que histórias de vida terão passado por aquele lugar? Foram trinta e quatro invernos até os russos decidirem por fechar a estação. Um monte de histórias.

Lembrei-me das ruínas de uma pousada próxima do campo base do Aconcágua. Entrar num cômodo e velo cheio de neve dá uma sensação estranhíssima. Casas, prédios os abrigos construídos pelo homem, enfim, são como coisas sagradas. Nos protegem da natureza, do frio e da chuva. E quando não conseguem fazê-lo deixam a gente com uma estranha sensação de falta de proteção, dependendo de nossos frágeis corpos.

 
  Foto 1: Eu e o dono do pedaço.
Foto 2: As morsas fazendo um social.
Foto 3: Nosso helicóptero. Velhinho, sujinho, mas confiável.
Foto 4: A velha estação Polar abandonada. Parece cenário de filme.
Fotos: Luciano Pires
   
 
  Foto 1,2,3 e 4: A paisagem deslumbrante do arquipélago Franz Josef Land.
Fotos: Luciano Pires
   
 
  Foto 1, 2, 3 e 4: Ali em Hooker Island dá pra ver claramente como a natureza recupera aos poucos seu espaço. Os prédios – totalmente construídos de madeira - perdem a cor, ficam cinzas e são invadidos pela neve que derruba as paredes, tombam e vão sendo aos poucos destruídos pelo vai e vem da neve, pelo vento, pela chuva e pela ação dos anos.
Fotos: Luciano Pires
   
 
  Foto 1 e 2: Explorei o lugar, vi os monumentos, andei pela neve por todo lado até chegar a hora de ir embora. Foi quando passei por um toilete antigo. Inacreditável...
Foto 3: Imagine se eu ia perder a chance de sentar ali?
Foto 4: Mamãe ursa e seus ursinhos.
Fotos: Luciano Pires
   
 
  Foto 1: Aquele lugar ficará gravado em minha memória. Para sempre.
Foto 2: Fridtjof Nansen.
Foto 3: O Fram navegando no Ártico
Foto 4: A pedra de meditação de Nansen
Fotos: Luciano Pires
   
 
  Foto 1: Fridtjof Nansen.
Foto 2: O marco indicando o local onde Nansen encontrou-se com Jackson.
Foto 3: Pois bem. Eu havia estado no local onde eles passaram aquele primeiro inverno. E agora estava onde eles encontraram Jackson. A cabeça viajou a milhão...
Foto 4: As paisagens são inacreditáveis.
Fotos: Luciano Pires
   

Ali em Hooker Island dá pra ver claramente como a natureza recupera aos poucos seu espaço. Os prédios – totalmente construídos de madeira - perdem a cor, ficam cinzas e são invadidos pela neve que derruba as paredes, tombam e vão sendo aos poucos destruídos pelo vai e vem da neve, pelo vento, pela chuva e pela ação dos anos.

Um imenso hangar foi construído para uso com balões. Fios e mais fios estão por toda parte, inclusive ainda fixados nas antenas antigas.

Falei com uma das coordenadoras da viagem, que estava um pouco emocionada. Aquela era a sétima vez que ela ia ao Pólo Norte e a terceira vez que descia naquela ilha. E me disse que era a primeira vez que fazia isso com tempo bom, sem ventos, sem neve. Estava encantada... e se ela estava, imagina eu... como é que ninguém ainda fez um filme nesse lugar?

Bem, explorei o lugar, vi os monumentos, andei pela neve por todo lado até chegar a hora de ir embora. Foi quando passei por um toilete antigo. Inacreditável...

Voltamos pro navio para almoçar e descansar para a próxima visita do dia, quando iríamos para Northbrook Island, outra ilha do arquipélago Franz Josef Land. Ali está o Cape Flora, ou Cabo Flora.

Foi ali que Nansen e Johansen foram protagonistas de um dos mais fantásticos lances de sorte da história, que merece ser contado aqui.

Em 1893 o norueguês Fridtjof Nansen liderou uma expedição ao Ártico com o objetivo de chegar ao Pólo Norte, coisa que ninguém tinha conseguido até então. Nansen era um de gênio inovador que concluiu que em vez de lutar contra a natureza o melhor seria aliar-se a ela. Ele desenhou um navio, o Fram ( que quer dizer “para a a frente”), com um casco especial que faria com que ele, ao ficar preso no gelo, fosse empurrado para cima. Em vez de ser esmagado como ocorria com os navios de então, o Fram assentaria sobre o gelo e ali permaneceria. A estratégia de Nansen era esperar que o gelo acompanhasse as correntes e passasse pelo Pólo Norte. Era uma viagem estimada de cinco anos, a maior parte dos quais preso no gelo.

Depois de um ano preso no gelo ficou evidente que o Fram não alcançaria o Pólo Norte ou se o fizesse seria num prazo muito maior que o estimado.
Quando o Fram atingiu 86º 4’ Norte, Nansen decidiu, acompanhado de Hjalmar Johansen, deixar o navio e seguir a pé em direção ao Pólo. Foi uma decisão arrojada, pois eles sabiam que ao deixar o navio não conseguiriam mais retornar a ele. E a terra firme mais próxima estava a cerca de oitocentos quilômetros ao sul.
Hansen e Johansen partiram em 14 de março de 1895, com três trenós, dois caiaques e vinte e oito cães. No dia 8 de abril de 1895 eles chegaram a 86º 14’ Norte, a latitude mais alta que o homem atingiu até aquela data. Foi então que Nansen confirmou algo perturbador: enquanto eles caminhavam para o norte, a cobertura de gelo sobre a qual eles andavam derivava para o sul. Era como se estivessem subindo uma escada rolante pelo lado em que ela desce. Nansen compreendeu que não conseguiria chegar ao Pólo Norte e decidiu retornar.
Com base nos mapas da época eles tentaram chegar até algumas ilhas que estariam a 83º, mas descobriram que elas não existiam. Tinham sido miragens de antigos exploradores. Depois de usar seus caiaques para navegar pelo mar aberto em Julho de 1985 eles chegaram ao arquipélago de Franz Josef Land e desembarcaram num local que mais tarde ficou conhecido como Cape Norway, em Jackson Island.
Ali construíram o abrigo cujos restos eu visitei e passaram o inverno alimentando-se de Morsas e Ursos Polares. Em maio de 1896 eles retomaram o caminho de volta, sem saber direito onde estavam, aportaram no local onde agora em estava: Cape Flora em Northbrook Island.
Instalaram-se ali preparando-se para mais um inverno. No local havia uma pedra sobre a qual Nansen costumava ficar meditando.

Um dia Nansen ouviu o que pareciam latidos e caminhou na direção de onde vinham os ruídos. Deu de cara com Frederick Jackson, que liderava uma expedição que estava passando o inverno na ilha.
As chances de que um encontro como esse ocorresse são remotíssimas. O arquipélago tem cerca de 191 ilhas. E o mais impressionante: Jackson conhecia Nansen.
Quando se encontraram, Nansen parecia um animal selvagem, preto de fuligem , com as roupas engorduradas, meses sem tomar banho e queimado do frio e do vento. Mas Jackson o reconheceu. E eles puderam retornar para casa.
Acredite ou não: uma semana depois que Nansen e Johansen chegaram em casa, seu navio Fram aportou com todos os tripulantes vivos. Nansen depois dedicou-se a causas humanitárias chegando a ganhar o prêmio Nobel da Paz.

As melhorias que ele fez nos equipamentos, vestimentas e no desenho dos navios foram decisivas para que nos anos seguintes outros exploradores conquistassem o Pólo Sul e o Norte.

Pois bem. Eu havia estado no local onde eles passaram aquele primeiro inverno. E agora estava onde eles encontraram Jackson. A cabeça viajou a milhão...

As paisagens são inacreditáveis. Andar pela neve é um problema, pois em alguns momentos chegamos a afundar a perna até a altura da coxa. Lembrei-me da aventura do Everest, com a diferença de que aqui eu estava a nível do mar. É outra neve, outro gelo, outro esforço.

Voltei para o navio com a alma lavada. Eu havia experimentado ao vivo e em cores e gelo algumas das sensações que Nansen e outros pioneiros tiveram em suas épocas. Havia estado lá, onde as coisas aconteceram. Havia visto a grandeza da natureza e seu poder sobre o homem. Não há dinheiro que pague. Não há palavras que expressem.

 
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