DIÁRIO DE VIAGEM
 
O Sonho
Ártico
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29.06.2008: 89º 59’ N – 43º 37’ L - Pólo Norte at last! Chegada às 10:30 da manhã
 
 
  Abrindo caminho no gelo.
Foto: Luciano Pires
   
 
  Foto 1: À espera do Pólo Norte
Foto 2: Que venha o Pólo!
Fotos: Luciano Pires
   
 
  O GPS indicando nossa posição: norte absoluto!
Foto: Juan Carlos Espinosa
   
 
  À espera do Pólo Norte
Fotos: Luciano Pires
   
 
  No Norte absoluto.
Foto: Juan Carlos Espinosa
   
 
  Foto 1:No Pólo Norte
Foto 2: A cerração desceu em minutos
Foto 3: Mordomia no Pólo Norte
Foto 4: Como pode haver vida num lugar assim?
Fotos: Luciano Pires e Juan Carlos Espinosa
   

Na noite de ontem fomos avisados de que estávamos desenvolvendo boa velocidade e que poderíamos chegar ao Pólo Norte na manhã de hoje, domingo. Mas o líder da expedição fez questão de não assumir compromissos. Contou que três anos atrás a situação estava igual, faltavam duas milhas para chegar, coisa de minutos, quando o navio encontrou gelo mais grosso. E os minutos transformaram-se em seis horas!
Ficamos na expectativa de chegar ao Pólo após o café da manhã.

Por volta de 10 da manhã fomos avisados de que deveríamos todos ir para a proa do navio aguardar o momento exato. Existe uma celebração rotineira, inclusive com o Capitão discursando.

E nossa viagem tinha uma aura especial. Era a primeira vez que o “50 years of Victory” ia ao Pólo Norte. E tudo indicava que bateríamos o recorde de velocidade – ninguém jamais havia feito essa travessia Murmasnk-Pólo na velocidade que nós faríamos. Havia portanto motivos de sobra para festejar!
Sem contar que era aniversário do Capitão. Tem gente que jura que ele colocou pressão na turma pra chegar lá no dia de seu aniversário.

Coloquei a vestimenta completa, que nesse caso são duas meias, a primeira fina e a segunda mais grossa, a bota de borracha (pois em breve desceríamos na neve), uma calça térmica, um macacão impermeável (que eu havia comprado para usar no Aconcágua), uma camiseta térmica de manga comprida e por cima de tudo a parka da expedição. Um gorro de lã era imprescindível também. Por cima do gorro, ia o capuz da parka. Como eu estava em pé na proa do navio, o vento soprava direto em meu rosto, o que obrigava a levantar o protetor da parka até cobrir minha boca. Com a proteção dos óculos escuros, ficava apenas a ponta do nariz e as maçãs do rosto expostas, que ficavam vermelhinhas, vermelhinhas...

O pessoal juntou-se todo na proa ouvindo pelos alto falantes os detalhes da operação conforme nos aproximávamos de nosso destino.



O PÓLO NORTE

O Pólo Norte é um ponto geográfico que não existe como formação natural. Não há uma montanha, um rio, uma árvore ou mesmo um signo erguido pelo homem no local. Simplesmente porque o local não existe. É um ponto matemático calculado sobre o oceano. No local onde ele se situa o oceano está congelado, formando placas que têm que ser rompidas pelo navio. Sobre uma dessas placas nós desceríamos quando encontrássemos o tal ponto matemático. Como essas placas estão constantemente flutuando ao sabor dos ventos e das correntes marítimas, mesmo que conseguíssemos descer exatamente no ponto onde os instrumentos marcassem os 90 graus norte, em minutos não estaríamos mais lá. Teríamos derivado para um lado ou para o outro. Portanto nossa aproximação era composta de dois momentos: o exato segundo em que os instrumentos do navio indicariam os 90 graus norte e depois, conforme o navio encontrasse gelo em boas condições, a instalação de um marco e a realização de um churrasco para celebrar nossa conquista.

Imediatamente surgiram GPS por todos os lados. Todo mundo de olho enquanto os aparelhinhos indicavam 89 graus e 57 segundos... 58 segundos... 59 segundos... Até que o líder da expedição começou uma contagem regressiva. E a buzina do navio disparou, comemorando nossa chegada ao Pólo Norte. Champanhe, “congratulations” para todo lado e uma certa sensação de frustração.
Era diferente.
Em minhas outras aventuras, cheguei até “O” campo base do Everest. Cheguei até “O” Aconcágua. Eu podia abaixar e pegar uma pedrinha. Podia bater uma foto. Podia tocar nos símbolos que indicavam que eu havia atingido meu objetivo. Mas agora não. Eu estava no norte geográfico, exatamente sobre uma equação matemática, intangível, invisível. Um lugar que custou a vida de centenas de homens para ser conquistado. Mas que jamais passaria de um ponto num atlas. Só.

E pra falar a verdade, é longe do Pólo que estão as coisas mais legais do Ártico. Em algumas ilhas que são santuários ecológicos ou até mesmo antropológicos e históricos. No Pólo mesmo, o que temos é uma monótona sucessão de formações de gelo, que vão até o horizonte, para qualquer lado que você olhe. Branco e azul contrastando com o negro do oceano. A torcida era que surgisse um urso polar por ali, para quebrar a monotonia...

Pois bem. Tudo pronto, o pessoal manobrou o navio com delicadeza até encontrar uma placa de gelo forte o suficiente para nos suportar, que eles chamavam de “good ice”. O processo de parada do navio, descida de escada, instalação dos observadores com os rifles (para o caso do urso polar aparecer) e da descida dos equipamentos para o churrasco levou algo em torno de duas horas. Desconfio que essa demora serviu também para que as rachaduras na placa de gelo se solidificassem, pois o navio ficou completamente preso. Era possível chegar até o casco do navio e tocá-lo, de pé sobre o gelo. Apenas atrás do navio ficou uma piscina de água e gelo, que aos poucos também foi congelando. Aliás, nessa piscina os mais arrojados mergulhariam. E acredite, foram muitos...

Quando desci a escada do navio em direção ao gelo, meu coração bateu mais forte. O que eu estava fazendo naquele momento, poucos homens fizeram. Ou farão. Eu estava prestes a colocar meus pés sobre o Pólo Norte. Fui direto para o totem que o pessoal do navio instalou e bati a foto que vai ficar pra minha história. Naquele momento, qualquer outro lugar sobre a superfície do globo terrestre estaria ao sul. Ninguém estava mais ao norte do que eu! E não havia mais norte além daquele ponto onde eu estava! Era o norte absoluto.

O pessoal fez a maior festa. Todo mundo tinha uma bandeirinha, um bonequinho, um logotipo ou algo para mostrar no momento da foto. Eu devia ter trazido uma bandeira do Corinthians. Mas esse Corinthians que aí está não é o meu, não merece. Melhor ficar como ficou: eu e eu.

Comecei a andar por ali. Como é difícil... Você caminha sobre o gelo que tem sobre ele uma camada de neve. E de repente afunda a perna até a coxa na neve, para logo em seguida pisar num local alto. E pra todo lado, blocos de gelo. Não é uma superfície lisa. Por isso, os caras que vêm para cá com trenós, penam. Eles têm que passar por todos esses obstáculos nas centenas de quilômetros que devem seguir até chegar aqui.

E nós, naquela manha, com churrasco e tudo.

 
   

Outra coisa que chamou a atenção: a rapidez com que o tempo deteriora-se nesta região. Em questão de minutos uma cerração desceu sobre nós, enfraquecendo o sol e apagando o navio. E não tínhamos nenhuma proteção. Imagine se o tempo vira de vez e começa a ventar e cair a temperatura mais ainda? Tinha acabado o churrasco...

Olha, cada vez que escrevo sobre o churrasco me dá um nó na alma. Desculpe voltar ao assunto, mas cada segundo que passei ali admirei mais ainda os heróicos pioneiros que andaram por estes lados quando não existia a energia atômica. Eu li muita coisa sobre eles ao longo dos últimos anos, por isso essa consciência de que – de certa forma – eu não estaria honrando suas memórias ao participar de um prosaico churrasco no Pólo Norte. É como que uma banalização da história, sacou? De um lado o orgulho por estar lá, de outro uma certa vergonha ou até remorso por estar lá daquele jeito.

A sensação de exposição ao tempo é algo curioso. Mostra como somos frágeis, como o ser humano não foi feito para ser largado na natureza. A gente só sabe da importância de um abrigo quando o vento bate por todos os lados. Tentando escapar do vento frio lembrei-me de quando, protegidinho na minha cabine, eu vi os rastros dos ursos polares e imaginei como é que um mamífero podia viver num lugar daqueles?

 
   

Aí ouvi o barulho de um chute. Os russos da tripulação trouxeram uma bola de futebol, fizeram ali as marcações dos gols e começaram a jogar uma partida. Bem disputada por sinal. Aos poucos foram tirando os agasalhos e logo a turma toda se matava de correr atrás da bola que era jogada pra lá e pra cá pelo vento.

No momento que me preparei para descer até a neve, vi dois russos chegando para descer também, mas os dois em trajes de banho. Calção, sem camisa, com uma sandália. Um deles levava duas bandeiras.

O povo agrupou-se próximo do lago formado atrás do navio. Baixaram uma escada daquelas de piscina e pronto. Estava formada a confusão. Várias pessoas foram chegando, tirando a roupa e formando uma fila. Um cinturão era passado por suas cinturas e um dos russos segurava a corda presa a ele. A pessoa então chegava na beirada da escada e saltava para dentro da água, em meio aos blocos de gelo. Trinta segundos depois subia correndo. Alguns arriscavam umas braçadas, era uma festa. Olhei bem aquilo, avaliei o antes e o depois. E preferi ficar no meu quentinho. Ta certo, seria uma experiência única na vida, mas acho que existem outras experiências que valem mais a pena. Mergulhar naquele tanque semi congelado não estava em meus planos. Mas que era engraçado ver a turma mergulhando, era!

Aí chegaram os chineses...

 
  Futebol no Pólo Norte
Foto: Luciano Pires
   
 
  Os russos preparando-se para um mergulho.
Foto: Luciano Pires
   
 
  Foto 1: Os mais doidos entraram na água.
Foto 2: Churrasco no Pólo!
Foto 3: Isso é que cerveja estupidamente gelada...
Foto 4: A instalação dos sapatos
Fotos: Luciano Pires e Harish Singhal
   

Tinha uma turma de oito chineses no grupo. Era um grupo de amigos, divertidos, que realmente tiraram todo o proveito da experiência de vir ao Pólo. Munidos de todos os tipos de máquinas fotográficas, com bonequinhos das olimpíadas e falando alto, o grupo estava sempre unido e divertindo-se. Ora estavam todos fotografando o navio, depois fotografando-se na frente do marco, depois com bandeiras e cartazes, e fazendo aquela algazarra. Eram seis homens e duas mulheres. Quando os russos começaram a recolher a escada e o material usado no mergulho, os chineses resolveram que era hora deles mergulharem. E lá foram eles. Eu fui junto, pois não podia perder a oportunidade. O russo que vinha carregando a escada, quando viu os chineses deu um grito, abriu os braços e abraçou o primeiro chinês. Entenderam-se em segundos e pronto! O circo estava armado outra vez. Divertidíssimo. Dois chineses tiraram as roupas, ficaram com seus calções de banho e... chuá... pra dentro da piscina! Saíram aos gritos enquanto todo mundo ria. Muito divertido. Mas precisa ser meio louco mesmo...

Resolvi caminhar um pouco mais e logo cheguei no limite de nosso campo. Olhei para o segurança e ele me acenava para que eu não fosse mais adiante, pois sairia de seu ângulo de visão. Se o urso aparecesse por ali, seria eu e o bicho, o que não era necessariamente uma opção agradável. Mas ali, no limite de nosso campo, deu pra olhar para o horizonte e imaginar como seria uma caminhada de dias, semanas ou meses naquele ambiente. Fiquei só na imaginação. Em vários dos livros que li, estava bem claro que não existe esforço físico ou psicológico maior do que seguir num trenó por aquelas paradas.

Muito bem. Hora do churrasco. Os caras armaram uma bela estrutura, com churrasqueiras a carvão e logo estávamos na fila. Carnes de todos os tipos, saladas e bebidas. Tomei uma cerveja ali mesmo. Talvez tenha sido a cerveja mais fria da minha vida! E desceu que foi uma beleza...

O problema é que, com uma temperatura de zero grau e um ventinho baixando-a para três ou quatro negativos, todo mundo tinha que comer rápido. Coloquei duas salsichas e dois pedaços de carne no prato e não deu tempo de comer um deles, que esfriou em menos de um minuto...

Churrasco, vôo panorâmico de helicóptero, massagem a bordo, barmen, DVDs no quarto, navio atômico. Essa não é propriamente uma aventura, mas uma viagem de gente rica mesmo.
Pois até o nosso artista a bordo aproveitou para fazer algumas instalações relacionadas à proteção ao meio ambiente. Uma delas, muito interessante um círculo dividido em 360 graus, cada grau com o nome de um animal em extinção.
E uma outra instalação com sapatos femininos. Eu não estava lá quando ele montou e não sei o que quer dizer. Mas não tinha como não reparar. Olha só:

Permanecemos cerca de 6 horas no gelo. Subi para minha cabine por volta de sete horas da noite e eu estava gelado. Os pés já reclamavam, pois as botas de borracha protegem da umidade mas deixam o frio passar que é uma beleza... Mais tarde, já com o navio em movimento, quando me joguei na cama ouvi nos alto falantes o pessoal dizer que haviam localizado uma foca. Quase levantei pra ver, mas eu estava tão quentinho... De qualquer forma, eram já cerca de meia noite e o sol explodia lá fora. Tratei de tentar dormir, o que não acontece mesmo. Fiquei pensando na vida até mais de três da manhã. Para ser acordado às sete e trinta com o aviso de que novos vôos panorâmicos iam acontecer.
Mas as minhas costas...

 
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