DIÁRIO DE VIAGEM
 
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28.06.2008: 87º 10’ N – 53º 02’ L - Navegação através do gelo.
 
 
  O nosso helicóptero
Foto: Luciano Pires
   
 
  Foto 1: O primeiro vôo
Foto 2: A turma dentro do helicóptero e a santinha lá no fundo.
Foto 3: O navio visto do helicóptero
Fotos: Luciano Pires
   
 
  São 75.000 hp! Não há gelo que segure.
Foto: Juan Carlos Espinosa
   

Chegamos aos 86 graus norte, com temperatura de zero grau. Faltam 200 milhas náuticas até o Pólo Norte.

O programa de hoje foi mudado no último minuto, pois o tempo melhorou consideravelmente e a turma decidiu que o helicóptero ia voar. Então aconteceu aquela excitação. O alto falante anuncia que os grupos podiam se preparar para o vôo. Cada um dos 81 passageiros recebeu um número (o meu era o 79) e eles chamaram de dez em dez. Todo mundo obediente, em fila, aguardando para decolar com o helicóptero e dar umas três voltas ao redor do navio, quando poderíamos fotografar a vontade. À vontade em termos, pois a janelinha da aeronave é uma merdinha e eu tinha que ficar todo torcido para conseguir boas fotos. Além disso, o lado oposto ao meu foi privilegiado. Mas acho que consegui fotos razoáveis. Olha elas aqui.

O helicóptero deve ter uns trinta anos de idade no mínimo e a coisa mais engraçada é ver dentro dele uma imagem de uma santa na parede, logo acima do russo com cara de poucos amigos que faz a segurança interna...

O vôo foi tranqüilo, a turistada cansou de tirar fotos e depois foi almoço e o de sempre: “lectures”. Desta vez foi o líder da expedição que fez uma apresentação sobre a tecnologia dos navios quebra-gelos. Algumas coisas valem a pena guardar:

- navios quebra-gelos são construídos para abrir caminho para outros navios em meio ao gelo dos Pólos.
- eles têm como característica o poder dos motores. Um navio normal, de passageiros, tem entre 7 mil e 12 mil HP. Um quebra-gelos tradicional, movido a diesel, tem cerca de 25 mil HP. O nosso “50 Years of Victory”, o maior do mundo, tem a bagatela de 75 mil HP. Você leu bem: setenta e cinco mil HP! É uma máquina fantástica.
- se compararmos o nosso navio com o Erebus e o Terror, os dois navios que zarparam em 1846 (?) na fatídica viagem de John Franklin para encontrar a passagem norte, veremos até onde chegou a tecnologia. O Erebus e o Terror tinham por volta de 20 hp. E naquela época um navio poderoso tinha 220 hp. Eu disse 220... Os motores do Erebus e Terror eram locomotivas modificadas, movidas a carvão. Podiam navegar a cerca de 4 ou 5 nós em velocidade de cruzeiro. O “50 Years” vai a 20 nós com um pé nas costas... E quando pega gelo pela frente cai para os 4 a 5 nós que os outros faziam em mar aberto.
- os quebra-gelos têm um desenho especial do casco, não só para facilitar a quebra do gelo como para abrir um caminho mais largo que o próprio quebra-gelos. É que atrás dele normalmente vem um navio maior

- a frota de quebra-gelos russa serve para manter ativa durante os meses de inverno a passagem norte, uma importante rota comercial que funciona o ano todo em meio ao gelo do círculo polar.
- o navio é construído para ser auto-suficiente. Com 138 tripulantes, tem dois reatores nucleares, esquema de dessalinização para produção contínua de água doce, quadra de esportes e piscina e capacidade para trocar as hélices se necessário. Tem também três GPS em pontos diferentes do navio.
- perguntei aos especialistas se nosso navio conseguiria chegar ao Pólo Norte no inverno e a resposta foi: sim. Apenas seguiria mais devagar, pois enfrentaria camadas mais grossas de gelo. Mas chegaria lá.

Deitado em minha cabine, confortavelmente aquecido, com espaço à vontade para me locomover pelo navio e mordomias como dois bares com seus bartenders, mais uma vez sinto-me até covarde quando leio as histórias dos pioneiros que tentaram chegar até o Pólo Norte nos anos das grandes descobertas, entre 1818 e 1930. A descrição de como aquela turma era acomodada nos navios, de sua alimentação e de como passavam entre 9 e 10 meses de inverno presos ao gelo numa rotina diária de martírio e frio, faz de mim um sortudo por ter nascido numa época em que a tecnologia pode nos dar o conforto que estou experimentando.
Mas é assim a história, cada um a seu tempo, não é? Talvez meu tataraneto a caminho de Marte fique fascinado com esta minha aventura e ache que eu também sou cabra macho...

O lado ruim da viagem é o velho problema das minhas costas. Já encrencaram em São Paulo dois dias antes da saída e ao longo da viagem têm sido um tormento. As camas, tanto do hotel quanto do navio, não ajudam. Ao levantar pela manhã parece que tomei uma surra. Já fiz uma sessão de massagem no navio com o Sacha, um russo que vive em Nova Iorque. Foi legal, sempre ajuda mas não acaba com o problema. Cheguei a abrir mão de fazer um vôo com o helicóptero em função das dores nas costas. E dá-lhe dorflex... Taí algo que a tecnologia ainda não conseguiu corrigir: minhas costas...

 

 

 
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