DIÁRIO DE VIAGEM
 
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26.06.2008: 78º 31’ N. 49º 01’ L
 

Passando por Franz Josef Land às 22 horas. Primeiros blocos de gelo avistados as 17:30

 
  Quase um astronauta...
Foto: Luciano Pires
   
 
  Foto 1: O gelo começa a aparecer.
Foto 2: O maior quebra-gelos nuclear do mundo!
Foto 3: Um casco desenhado para subir no gelo.
Foto 4: Pra quem pensava que era tudo branco...
Fotos: Luciano Pires
   
 
  Foto 1: As primeiras pegadas. Tinha ursos por lá!
Foto 2: O gelo começa a fechar.
Foto 3: Gelo, gelo e mais gelo.
Foto 4: E mais pegadas...
Fotos: Luciano Pires e Harish Singhal
   

Acordei com a informação de que estávamos a 77 graus norte, com temperatura de 4 graus centígrados. Já havíamos navegado 55 milhas náuticas desde que saímos de Murmansk. Por volta de 11 horas da manhã fui olhar pela janela e – opa – começo a ver uns pedaços de gelo passando por nós. E cada vez mais pedaços. É então que o navio começa a chacoalhar ao entrar em contato com o gelo. Só então dá pra perceber a diferença entre um navio e um quebra gelos.

O 50 Years of Victory é o maior navio quebra-gelos do mundo. É uma daquelas maravilhas da tecnologia que pouca gente conhece.

Seu casco é desenhado para subir no gelo e quebrá-lo com o peso do próprio navio e assim seguir em frente.

É fascinante sentir sob os pés a vibração dos motores enquanto os solavancos do gelo quebrando são se sucedendo. Dá uma sensação de poder muito boa. Vou lá fora espiar...

Frio! Frio! Frio! A temperatura não estava tão baixa assim, eram quatro graus, mas o vento... por mais que eu tenha me protegido o vento penetrava e machucava. Coloquei a parka amarela, gorro, luvas, calça térmica e tudo que eu tinha direito e consegui ficar um bom tempo lá fora, filmando e fotografando os blocos de gelo que iam ficando para trás.

As cores do gelo são fantásticas. São tons de azul maravilhosos e o contraste do branco do gelo com as águas escuras do oceano é fascinante.

Opa! Mas aquilo ali são pegadas? E mais pegadas? Pegadas por toda parte! De ursos polares, inconfundíveis. Excitação generalizada!

Estávamos na terra deles e era possível ver claramente do navio as pegadas. Como é possível que um mamífero como um urso viva num lugar desses? Não consigo imaginar nada tão inóspito e agressivo à vida do que a região pela qual eu estava passando. Oceano com água na temperatura de congelamento, blocos de gelo à deriva. E pegadas... Agora era só uma questão de tempo até que surgisse um urso polar em nosso caminho. Mas ainda demoraria um bocado...

E de repente, do mesmo modo como os blocos de gelo surgiram, eles desaparecem e enfrentamos águas calmas. Até que lá na frente, mais gelo, e cada vez mais fechado. Mas o navio parece nem tomar conhecimento do gelo: segue em frente.

Decidi sair de novo, dessa vez com a câmera de filmagem, para buscar imagens legais. Mas não é fácil, viu? Pra quem está acostumado com aquelas filmadoras minúsculas, trabalhar com uma câmera profissional é uma encrenca. O navio vibrava e chacoalhava muito. Pela primeira vez temi não conseguir as imagens que eu pretendia. Talvez apenas quando estiver no helicóptero ou então quando descer no gelo. Mas mesmo assim capturei bastante coisa. E logo percebi que aquilo era monótono mas ao mesmo tempo hipnotizante. Sabe aquela sensação quando você olha para o fogo ou para uma cachoeira e fica como que hipnotizado? Aqui era o mesmo, os blocos de gelo, os ruídos, os balanços, tudo contribuindo para que a experiência de permanecer do lado de fora observando a navegação fosse algo mágico.

Lembrei-me então das histórias dos grandes exploradores, os caras que 150 anos atrás atiraram-se nestas mesmas águas sem os equipamentos e o conhecimento que agora me trazem aqui. É a mesma constatação que fiz ao longo da trilha do Everest: aqueles caras eram machos! Imagine como seria a viagem sem água quente, com comida racionada, com agasalhos nada sofisticados, sem as roupas técnicas nem os instrumentos de navegação. E num navio que ficaria preso no gelo por 9, 10 meses?

 
   

Bem, hoje começavam as palestras a bordo. Primeiro era a Susan com “Introdução à Geologia e o tempo geológico”; depois a Jane com “Pássaros marinhos do Ártico – uma introdução às diferentes espécies de pássaros marinhos” e por fim o Louis com “Uma introdução geológica ao Ártico”. Escolhi assistir apenas à terceira palestra. Conteúdo interessante, mas ministrada de forma amadora. Dormi a metade do tempo...Ô Dramin, viu?

Enquanto isso o tempo lá fora vai virando e de novo temos uma neblina fortíssima, sob a qual ficaremos durante várias horas.

Devagarzinho a rotina da viagem vai se firmando acorda-café-blablabla-almoço-blablabla-rosquinhas-blablabla-jantar-dormir , e de vez em quando botar a cara lá fora para fazer umas imagens que, no fundo no fundo, são sempre as mesmas: branco, neblina, gelo e água do mar. Nada de urso polar até agora... Mas as pegadas eu vi. E um monte!

Conheci já algumas pessoas. Gente de todo o tipo vindo pra cá, a maioria é mesmo de pessoas que já foram para a Antártica e agora estão fazendo o Ártico. Ficam fascinados quando eu digo que sou do Brasil...

 
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