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Até vestir já estaríamos mortos...
Foto: Luciano Pires |
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Escolhendo as botas.
Foto: Luciano Pires |
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Acordei meio grogue com o sono do Dramin e experimentei o chuveiro, interessante. Apertadinho mas quentinho. Fui para o café da manhã com a cabeça em conflito. Era o dia do meu aniversário, o primeiro de minha vida que eu passaria sem meus familiares. Procurei não pensar muito a respeito, encarar o dia como outro dia qualquer ou ainda: como um dia especial, que pouquíssima gente pode experimentar... Um aniversário no círculo polar ártico a caminho do pólo norte. Um luxo só.
Após o café da manhã tivemos a primeira reunião para apresentação da equipe da Quark Expeditions. Tínhamos biólogos, historiadores, fotógrafos, geógrafos, artistas e também uns chutadores cuja presença não entendi. E descobri que o grupo que deveria ter cerca de 128 pessoas não tinha nem 85. Parece que estávamos numa recessão mundial e veio menos gente que o esperado.
Em seguida tivemos a sessão de distribuição das botas de borracha. Todo mundo recebeu um par de botas pretas que deveria ser utilizado quando descêssemos em terra. Ou melhor, em gelo.
E em seguida tivemos a distribuição das parkas, os agasalhos amarelos que são padrão nesta expedição. Trata-se de um agasalho pesadíssimo, fabricado para enfrentar o frio do ártico, bem legal. Todo mundo recebeu o seu e correu guardar na cabine. Dentro do navio é quente. Só de olhar para aquela parka eu já transpirava...
Aliás, o lugar mais gostoso para ficar no navio era a minha cabine, pois eu mantinha a janela meio aberta e o calor era compensado pela brisa gelada do ártico. Começamos a viagem com cerca de 10 graus em Murmansk.
Na parte da tarde, uma reunião com a turma de segurança onde nos falaram sobre as precauções e ensinaram a vestir um macacão térmico. Complicadíssmo... Até vestir já estaríamos mortos...
Mais tarde outra reunião com os pilotos do helicóptero e uma simulação de emergência, quando todos deveríamos nos dirigir aos botes salva vidas. Uma zona a tal simulação, mas que deveria ser normal, pois logo nos dispensaram.
Durante a apresentação da turma da segurança, um momento-chave foi quando o líder da expedição chamou à frente três sujeitos – um deles parecia um armário – que eram a própria segurança. A função dos três era permanecer em alerta com seus rifles enquanto estivéssemos em terra – ou em gelo – guardando um perímetro para nos proteger dos ursos polares. Só então a ficha cai. Estávamos realmente numa região onde havia riscos sim. Até mesmo o risco de ser atacado por um urso polar! O responsável pela expedição mostrou um desenho explicando o posicionamento dos seguranças e deixando claro que havia um limite do qual não podíamos passar. Se passar o urso pega...
Notei uma certa excitação no ar...
O navio seguia firme rumo ao norte. Calculo que a velocidade era de cerca de 20 nós, em mar muito calmo. Num determinado momento entramos dentro de uma cerração e dali para a frente foram horas e mais horas com nada pra ver a não ser cerração.
À noite o tradicional coquetel de boas vindas com o capitão e os oficiais do navio. Boas vindas em russo, evidentemente. A tripulação é composta de cerca de 170 pessoas, que você nunca vê quando circula pelo navio.
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Cinqüenta e dois aninhos, a caminho do Pólo.
Foto: Luciano Pires |
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Em seguida um jantar. Sentei-me à mesa com dois ingleses, o Ian e o David e ficamos conversando. Eu não entendia nada do que o David dizia. O desgraçado falava um inglês enrolado e baixinho. Mas era um tirador de sarro, bem humorado e fã número um do Led Zeppelin. Fizemos uma boa amizade ali. Contei para os dois que era meu aniversário, encomendei um belo vinho italiano e brindamos a mim.
Eram cinqüenta e dois anos de idade... procurei não pensar muito a respeito.
No final do jantar, apagam-se as luzes e vêm lá do fundo um bolo com aquela velinha que parece fogos de artifício e a turma toda canta o parabéns pra você. Um grupo vem me cumprimentar e assim passou meu níver...
Dei um tempo, esperei chegar meia noite e fui até a cabine de rádio, de onde liguei para a família no Brasil, outra experiência inusitada. O operador do rádio era um garoto russo, que falava o básico do básico do básico de inglês. Mas tinha uma cara boa e era bem humorado. Nos entendemos e consegui fazer as ligações. Chegou um amigo dele e os dois ficaram se divertindo ouvindo eu falar aquele idioma estranho ao telefone.
Olha, se eu queria um aniversário diferente, pode crer que consegui. Aliás, o meu aniversário durou 30 horas, as 24 normais mais as seis que eu estava à frente do Brasil...
Por fim o sono dos justos. Em meio à neblina. |