DIÁRIO DE VIAGEM
 
O Sonho
Ártico
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02.07.2008: 81º 12’N – 55º 24’ L - Os shows dos ursos polares.
 
 
  Arquipélago de Franz Josef Land.
Arte: Fabio Ramos
   
 
  Chegando a Franz Josef Island.
Foto: Luciano Pires
   
 
  Chegando às ilhas
Foto: Luciano Pires
   
 
  Foto 1: Isto foi o abrigo de Nansen nos invernos.
Foto 2: “Aqui Fridtjof Nansen e Hjalmar Johansen passaram o inverno entre 1895-96 depois de terem deixado o FRAM a 86º Norte”.
Foto 3: A tundra do Ártico.
Foto 4: Um tapete vivo.
Fotos: Luciano Pires

Visitando Cape Norway e Jackson Island no arquipélago de Franz Josef Land

Ainda excitados com a performance do urso na madrugada, estávamos todos no café da manhã. O dia prometia, pois estávamos chegando ao arquipélago de Franz Josef Land, que foi descoberto em 1873 por Karl Weyprecht e Julius Von Payer que faziam parte de uma expedição Austro-Hungara que tentava chegar ao Pólo Norte. Depois de uma curta exploração eles tiveram que abandonar seu navio, o Tegetthoff, e remar pequenos botes por cerca de 640 quilômetros até a ilha de Novaya Zemlya, onde foram salvos. Todas as histórias por aqui são assim...

Depois de explorar algumas ilhas os exploradores deram ao arquipélago o nome do imperador da Áustria, Franz Josef, sabe como é...

Nós desembarcaríamos num lugar chamado Cape Norway, em Jackson Island. Neste lugar, em agosto de 1895, Fridtjof Nansen e Hjalmar Johansen chegaram após voltar do ponto mais ao norte até então alcançado pelo homem: 86 graus e 14 segundos. Hansen eJohansen haviam deixado seu navio, o Fram, que estava preso no gelo, para tentar chegar ao Pólo Norte em trenós. Após descobrirem que enquanto andavam para o norte, a placa de gelo sobre a qual eles estavam flutuava para o sul, desistiram e começaram a voltar para casa no que se tornou uma das mais fascinantes histórias de sobrevivência no ártico.

Pegamos o helicóptero de descemos em Cape Norway. Nessas trasnferências para as ilhas, o helicóptero carregava cerca de 20 pessoas. Ao descer um dos integrantes da Quark nos aguardava para instruções sobre o havia para ver e como nos comportar na ilha.

A primeira coisa a surgir foram os restos do que foi o abrigo que Nansen e Johansen construíram para permanecer naquela ilha por dez meses. Eles cavaram um buraco de cerca de um metro de profundidade e ergueram paredes de pedra com cerca de um metro também. Sobre elas conseguiram colocar um tronco da única árvore que havia na região. Mataram algumas walrus e com sua pele fizeram uma cobertura. O buraco está ali, as paredes já caíram mas o tronco permanece atravessado sobre a cova. Fascinante saber que aquilo salvou a vida dos dois...

Um monumento ali ao lado com uma placa indica o local e dá os nomes dos exploradores envolvidos.

Nansen e Johansen saíram de Cape Norway em maio de 1896 e chegaram até Cape Flora, em outra ilha – no lugar certo, na hora certa - onde, num golpe de sorte que entrou para a história, deram de cara com uma expedição que os resgatou. Nós iríamos até essa ilha também.

Andar por aquele lugar é fascinante. Mas imaginar que os caras pudessem passar dez meses ali, com o conforto que a tecnologia de 18 e abobrinha permitia... É inacreditável.

Ao descer do helicóptero, pisei pela primeira vez na tundra do ártico.

A tundra é a superfície das ilhas, que surge quando acontece o degelo do verão. Uma camada do solo – chamada de permafrost – a cerca de um metro abaixo da superfície, está permanentemente congelada. Mas acima, quando o gelo desaparece forma-se um tapete – e é isso que é mesmo, um tapete – de plantas, liquens, terra e outros componentes.

Você caminha sobre essa camada e é como se ela estivesse viva, como se fosse a pele da ilha. O pé afunda gentilmente e quando você levanta-o, o solo reassume a posição normal. Não fica aquela marca de pegada que fica na areia ou no gelo. Ao caminhar, parece que estamos andando sobre uma esponja, inclusive fazendo o barulho característico. É fascinante.

E as cores são maravilhosas. Vários tons de verde, ocre, vermelho e uma espécie de roxo, compõe um quadro lindo de ser visto.

Os cientistas dizem que essa tundra, ao ser exposta ao sol, emite uma serie de gases que também contribuem para o aquecimento global. E essa tundra cobre uma região imensa do ártico, praticamente todas as ilhas e regiões de continentes que são cobertas por gelo no inverno.
De qualquer forma, o que ficou nítido ali é que essa tundra deve ser um solo fértil para qualquer tipo de plantação. Se o gelo desaparecer, essas terras valerão muito. Por isso a briga que sempre aconteceu por ali. A Rússia já pediu para ser reconhecida como dona de grande parte do território, coisa que a Dinamarca contestou. E isso ainda vai longe...

No mais, gelo, pedras, ossos, pedaços de madeira e de metais enferrujados pra todo lado. É essa a paisagem dessas ilhas. Que em sua estranheza, inospidez e dureza, é de uma beleza estonteante.

 
   

No paredão de pedra, centenas de pássaros fizeram seus ninhos. Os pássaros migram das regiões equatoriais e tem cerca de 80 a 90 dias para acasalar, botar, criar os filhotes, ensiná-los a voar, mergulhar e se alimentar. Em agosto todos vão embora e tudo aquilo fica vazio até o próximo verão. O senso de navegação dos pássaros é fantástico e os cientistas acham que eles usam o sol e os campos magnéticos para orientação. Os filhotes, já maduros, vão retornar para a mesma pedra onde nasceram, a milhares de quilômetros de distância.

Nessa e em todas as outras vezes em que descemos para terra, primeiro é feito um vôo com o pessoal técnico. Entre eles, três agentes de segurança, que trabalham para a agência do governo que sucedeu a famosa KGB. Eles acompanham toda a viagem, zelando por nossa segurança e pela deles também. Nosso navio é um petisco para um atentado terrorista, por exemplo. Um navio russo cheio de turistas ricos, na maioria norte-americanos, que tal?

Mas nas ilhas a função dos seguranças é a mesma daquela do churrasco: estabelecem um perímetro além do qual os passageiros não podem ir. Os seguranças, seus rifles e revólveres são a garantia de que nenhum urso polar vai nos atacar. Mas a perspectiva é assustadora...

Á noite sentei no bar do navio com os seguranças russos. Um deles falava inglês bem rudimentar e traduzia a conversa para os outros dois. Quando perguntados sobre a função que desempenham, eles responderam mais ou menos assim:
- Nós torcemos para que os ursos apareçam quando vocês estão no navio. Se aparecerem enquanto estamos nas ilhas, será ruim para os passageiros, ruim para nós e ruim para os ursos...

 
  Foto 1: O colorido da tundra.
Foto 2: O navio nos esperando lá longe.
Foto 3: O paredão de pedra onde as aves fazem seus ninhos.
Foto 4: O segurança vigiando os ursos.
Fotos: Luciano Pires
   
 
  Foto 1: Tudo gelado. E lindo.
Foto 2: Tomara que nenhum urso apareça.
Foto 3: Será que vai aparecer o urso?
Foto 4: Mamãe ursa e seus ursinhos.
Fotos: Luciano Pires
   
 
  Conforme os biólogos os filhotes deveriam ter cerca de 4 meses de idade. As estatísticas dizem que em média apenas um dos dois chegará à idade adulta. Vendo aquele lugar é difícil imaginar como é que ele consegue sobreviver!
Foto: Harish Singhal
   

A perspectiva de estar num lugar inóspito, cercado de pegadas dos ursos polares, é algo que nós, os ocidentais civilizados não temos. Estamos ali à disposição do maior predador carnívoro do mundo. Um deles pode aparecer de repente e, se estiver faminto, resolver almoçar um de nós. Essa possibilidade está além de nossa capacidade de compreensão.

Eu mesmo ficava apreensivo enquanto andava pela ilha. Olhava para os lados, sempre à procura do predador. Esquisito...

Quando voltamos ao navio para continuar a viagem, outro urso polar surge. Dessa vez uma ursa, com dois filhotes. Estávamos com sorte!
Conforme os biólogos os filhotes deveriam ter cerca de 4 meses de idade. E divertiam-se na neve como só sabem fazer as crianças.

As estatísticas dizem que em média apenas um dos dois chegará à idade adulta. Vendo aquele lugar é difícil imaginar como é que ele consegue sobreviver!

 

 

 

 
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