DIÁRIO DE VIAGEM
 
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01.07.2008: 83º 34’N – 48º 07’ L - Navegando através do gelo, em direção ao sul. Pegadas de ursos polares
 
 
  O David, o inglês que acabou virando meu amigo.
Foto: Luciano Pires
   
 
  Gelo, gelo e mais gelo....
Foto: Luciano Pires
   
 
  Foto 1: O primeiro urso polar.
Foto 2: A tocaia
Foto 3: O urso e a foca!
Foto 4: Levando para um lugar mais tranquilo.
Fotos: Luciano Pires
   
 
  Banquete na neve.
Foto: Luciano Pires
   

Na noite de ontem teve jantar especial e depois uma noite de gala com dança e bar. Não fui. Eu não trouxe roupas para essas coisas e me sentiria deslocado. Peguei o computador e fiquei no bar trabalhando. Logo chegaram várias outras pessoas que também não estavam dispostas a dança e tal. Sentamos todos ali para conversar e conheci então o Ed.

O Ed é de Rod Island, nos EUA. Reparei nele desde o aeroporto de Helsinki, pelo jeitinho cuidadoso de andar, os movimentos vagarosos, que denunciam a idade avançada. Em muitos momentos ele me lembrou de meu avô Duarte. Olhos azuis profundos, um quase sorriso o tempo todo e a carequinha. O Ed tem 85 anos de idade. E veio para a viagem sozinho, pois sua esposa não se locomove mais muito bem, de acordo com ele “perdeu o balanço”. Então ele viaja por conta própria. Fascinante! Contou de sua vida, tomou dois cálices de rum e disse que até dançaria algumas valsas, mas deixou os sapatos de dança em casa...
Além de tudo o velhinho é bem humorado.

Bem humorado como o Dave, o inglês que acabou tornando-se meu amigo. Entendo metade do que ele fala, mas nos damos bem. É uma figura, sempre fazendo palhaçadas e demonstrando muita cultura. Sentamos sempre juntos para as refeições e me divirto com as pessoas que também sentam e que não conseguem entender o que ele fala. O desgraçado começa falando alto e vai baixando e metralhando com um puta sotaque inglês. Diz ele que é de propósito, assim as pessoas prestam atenção nele e o alimentam...

Bem, por causa da festa de ontem hoje acordamos mais tarde, para um “brunch”, que é aquele café da manhã mais tarde e mais reforçado dos gringos.

Após o almoço tivemos outra palestra, dessa vez mais interessante, com a Prisca, tratando de “blogging”. Eles criaram um blog para a viagem, dentro do site da Quark, mas não sabiam como estava, pois não temos acesso à internet. De qualquer forma, a Prisca introduziu o tema “blogging”para um platéia onde a maioria mal sabe navegar na internet. Foi legal. No final assumi o compromisso de entregar a ela um post em português e inglês para ela publicar no blog. Fiz algo simples, e está lá, no HTTP://blog.quarkexpeditions.com/

No mais, navega, navega, navegar. Nunca pensei que veria tanto gelo em minha vida!

Fui deitar e por volta de uma da manhã o altofalante avisou: POLAR BEAR! Opa!
Todo mundo levantou e fomos correndo para a proa do navio. Quando cheguei já estava aquela muvuca mas consegui me acomodar bem e comecei a fotografar. Lá estava um ursão, lindo, andando em sua característica câmera lenta. Os ursos polares na verdade não são brancos. São amarelos. O que fica ainda mais destacado sobre o fundo de gelo branco.
Era a primeira vez que eu via um Urso Polar em seu habitat natural. E o termo para definir é um só: majestático. Parece um rei. Dominando a região. Anda devagar, pesado. É impressionante.

O navio parou e vi que o urso nem deu mais bola para nós. Estava caminhando, quando repentinamente parou. Eu ainda estava me acertando com a máquina fotográfica. O urso parou, ficou olhando fixo para um ponto e não se mexia.

Então parei de fotografar para acertar algo na câmera ou me posicionar, não lembro. Foi uma fração de segundo. Quando olhei no visor novamente o urso já estava com uma foca nos dentes.

Aconteceu comigo e com a maioria das pessoas. Ninguém se tocou que o urso estava à espreita de uma foca, pois ele estava andando por ali, como se estivesse apenas passeando.

Um passageiro, um médico indiano, da janela de sua cabine conseguiu filmar tudinho: o momento em que o urso prepara o bote e retira a foca de seu buraco de respiro.
Foi uma sensação. E de repente eu tinha diante de mim um urso com uma foca entre os dentes. Ele tratou de afastar-se do navio. A bióloga explicou depois que tratava-se de um urso jovem, por isso tentou afastar-se para comer a foca num lugar mais tranqüilo onde não houvesse a ameaça do navio. Se fosse um urso mais experiente teria comido a foca ali mesmo.

 
   

Mas conseguimos acompanhar o bicho e o que eu – e mais uma pá de gente – consegui foi uma inesquecível série de fotos do urso carregando a foca e parando para um banquete na neve.

Tudo que eu havia visto nos documentários em DVD estava acontecendo ali, ao vivo, em minha frente. O pessoal mais experiente do navio disse que o que vimos foi raríssimo, pois a tocaia do urso costuma demorar muito. Vê-lo tocaiar, capturar a foca e depois comê-la é coisa que pouca gente viu...

As fotos ficaram ótimas. A seqüência do banquete do urso é maravilhosa, com o vermelho do sangue tingindo a neve e os pelos do urso.
Inesquecível.

Foi o assunto da noite, o assunto do dia seguinte, o assunto da viagem. Veríamos mais uma porção de ursos polares, mas o show quem deu foi esse primeiro...

A impressão que tive foi de que a viagem ganhou outra dimensão. A rotina da navegação no gelo foi quebrada e o surgimento e a performance do urso foram perfeitos. O bicho só apareceu depois que estávamos cansados de ver pegadas pra todo lado. E apareceu para nos presentear com uma lição

 
  Cenas inesquecíveis.
Foto: Luciano Pires
   
 
  Ele e seu jantar. Ou será almoço?
Foto: Harish Singhal
   

de como a natureza funciona.
Inesquecível!
Voltei pro quarto e corri separar as fotos boas. Cada foto...

 

 

 

 
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